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terça-feira, 11 de março de 2014

Asa de ser.

Um certo mal aparece quando se camufla asas próprias, querendo voar com alheias. Asas essas, que pretensiosamente criaram como imagem correta, mas é oco, é plástico, é vazio de perfeição, mesmo chamado com este nome. São asas menores, feitas em formas padrão, para que não enxerguemos as reais, essas chamadas de imperfeitas e defeituosas. Para que não voemos muito distante no mundo, nem voemos muito para dentro de nós. 

Mas não, a natureza não é imperfeita, imperfeito é o julgamento que se faz dela, que se faz de nós, somos ela.
Se não tem amor de dentro, de fora que não será!
Hoje resolvi olhar-me no espelho, não só o reflexo habitual que enxergo, mas o interior que termina no exterior, tudo de fora é reflexo do que vem de dentro. E consegui amar, amar o mapa, mapa de meu ser. Mapa feito, perfeito, de linhas e pintas, manchas e mordidas. Pele.

Pele que escorre por todo meu corpo, marcada por ossos. Linhas das curvas, pintas de caminhos, manchas do que me derramo, mordidas da vida. Querida. Ser misterioso, lavado, vezes trancado, vezes brechado. Que já penou, penou para reconhecer-se, para aceitar-se, penou em reconhecer as penas de sua própria asa. Pena, pele, pelada, corpo, solto, louco de sua própria existência. Mas, que lavou-se.

Sim, lavo-me, lavo-me de toda sujeira que vem camuflando-me, dispersando-me de meu eu. O padrão da vida é despadronizado, é desengonçadamente equilibrado. E não é só tocar o famoso foda-se e fingir que esta bem, mas sim estar realmente bem com o que tem, com o que é. Mais do que foda-se, tocar o curto-me. Verdadeiramente. 

E chorei, me inundei de emoção pela satisfação de ser parte disso tudo, do fluxo, absurdo e beleza da natureza deste mundo. A delicadeza das partes corporais que formam-se, deformam-se e tomam forma novamente durante o processo de viver. Pela satisfação de enxergar-me como sou e estou, querendo ser, assim mesmo. Desafiada todos os dias pelas falsas formas que querem nos enfiar goela abaixo, ter orgulho e controle sobre minhas verdadeiras asas, voando com meu corpo, lindo e solto, por onde quiser. 

2 comentários:

  1. Nomeio-me assim. Ponto final.
    Adoro uma afirmação perdida, sem intenção, mas que reflete a mais verdadeira resposta duma questão descarnada em nossas mentes já desgastadas com tanto anseio pela vida: o fluxo. O fluxo que não se importa com seus elementos, com os sopros de vida que lhe fornecem o nome de natureza: esse maldito fungo está morto, mas não se preocupe, um novo surgirá para o substituir.
    Afinal, a existência é uma verdadeira guerra de todos os seres. Ame a natureza que despedaça a tudo por ser essencialmente cruel em si mesma, por tratar-se dum fluxo. Dum fluxo contínuo e sem motivo.

    Solto-lhe palavras para que eu possa sentir novamente uma sensação outrora destruída por amizades que se tornaram puras e eternas pelo seu fim. Eu a encontrei, ocasionalmente a encontrei, e agora ligo-me a você, para que eu possa senti-la mais próxima, até que eu tenha coragem de parar de a utilizar como ponte para meus sentimentos.

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